MAC inaugura exposição sobre o terror com artistas LGBT+. Com curadoria de Lucas Dilacerda, a mostra aborda a história da colonialidade como a história de um filme de terror.
O Museu de Arte Contemporânea (MAC Dragão) inaugura a exposição “Terror celestial”, com curadoria de Lucas Dilacerda, que apresenta obras de artistas LGBT+ que discutem o terror.
A mostra parte da ideia de que a história da colonialidade é a história de um filme de terror. E qual é a relação entre o terror e a comunidade LGBT+? Historicamente, essas existências têm sido associadas às figuras do terror, sendo chamadas de “monstros”, “queer”, “estranhas”, “assustadoras”, “freak“, “aberrações” e demais figuras que causam medo na cis-heteronormatividade-compulsória e em seus ideais sócio-políticos-regulatórios de normalidade.
A exposição “Terror celestial” lança um olhar para a produção de artistas LGBT+ a partir da ótica do terror: tanto o gênero do terror como também o terror do gênero. A exposição busca discutir como o imaginário do medo e do terror é reelaborado por esses artistas enquanto força de criação e, portanto, de cura.

Segundo a psicanálise, uma das formas que o ser humano encontra para aliviar os seus medos inconscientes é descarregar esse sentimento negativo no “outro”, projetando na população LGBT+ a imagem de “anormal” para se autoafirmar como “normal”. Os filmes do gênero terror são um exemplo dessa transfiguração do medo inconsciente em monstros para o alívio da humanidade.
Paradoxalmente, corpos LGBT+ sofrem cotidianamente acompanhados pelo afeto do medo: o medo de sofrer preconceito, o medo de apanhar na rua, o medo de sair de casa, inclusive o medo de ficar em casa, pois é justamente no ambiente familiar onde ocorrem a maioria dos casos de violência. Não à toa esse medo se transforma em diversos traumas e estruturas psíquicas na vida adulta, como a baixa autoestima, a necessidade da legitimação externa, o perfeccionismo etc.. Esses corpos sem lar, sem espaço seguro, experimentam a vida como um filme de terror.
É muitas vezes na arte que as pessoas LGBT+ encontram um lugar seguro para se apropriarem daquilo que lhes oprime, transfigurando o medo em coragem, ressignificando os xingamentos em expressão cultural. Se o “monstro” é aquilo transcende o humano e cria outras maneiras de existir, encontramos essa ebulição criativa na arte dessa comunidade: transformistas, perucas, asas, unhas, drag queens, glitter, brilho, cores vibrantes, formas orgânicas, livres e exuberantes.

Nesse sentido, a exposição “Terror celestial” discute a ressignificação do terror em arte. A mostra reúne artistas LGBT+ (em sua interseccionalidade de raça, território e geração: mulheres queer, pessoas negras queer etc.) que fazem da sua arte uma reelaboração dos medos de infância e a apropriação do terror como uma categoria estética. A exposição é elaborada com três linhas curatoriais: Monstros e quimeras; Espiritualidade terrena; e Terror das formas.

A primeira linha curatorial, “Monstros e quimeras”, apresenta obras que discutem a monstruosidade como aquilo que transcende o nosso entendimento de humano (cis-heteronormativo). Nesse sentido, são obras mais-que-humanas que abordam o cruzamento dos reinos dos animais, das plantas, dos minerais, dos encantados e das forças sobre-humanas, tais como nas obras de Davi Ângelo, Higo José, insiranomeaqui, Jonas Van, Juno B, Luciana Magno, Maurício Coutinho e Trojany, que revelam um imaginário de seres híbridos, quimeras, místicos e fabulosos.

A segunda linha curatorial, “Espiritualidade terrena”, aborda a temática da religião, tão marcante na vida de pessoas LGBT+. Historicamente, a religião cristã propagou a ideia de céu e inferno, na qual essas pessoas foram associadas a demônios e pecadores. Se por um lado a religião foi um espaço de violência, por outro lado pessoas LGBT+ buscam outras religiões para se conectar com a sua espiritualidade, tais como Carnaval no Inferno, Darwin Marinho, Charles Lessa, Isadora Ravena, Georgia Vitrilis, Honório Félix, Nicolas Gondim, Pedra Silva e Sérgio Gurgel. Nesse sentido, são obras que discutem a espiritualidade como um local de cura, apresentando raízes com saberes de matriz africana, tradições populares, cosmovisões indígenas e outras formas de conexão com a natureza espiritual.

Por fim, a terceira e última linha curatorial, “Terror das formas”, parte do conceito de “terrorismo de gênero”, que reflete como a produção artística de pessoas LGBT+ provoca um terrorismo nos gêneros clássicos das belas artes (retrato, paisagem, natureza-morta etc.). Terrorismo aqui é sinônimo de desobediência e, portanto, de criação de outras formas de existir. Nesse sentido, as obras de Antonio Breno, Bárbara Banida, Camila Albuquerque, Céu Vasconcelos, Gi Monteiro, Jonas Pinheiro e plantomorpho assustam a gramática normativa das artes e criam outras visualidades e expressões que resistem às categorias e classificações normativas da História da Arte.
Participam da mostra:
Antônio Breno · Bárbara Banida · Camila Albuquerque · Carnaval no Inferno · Céu Vasconcelos · Charles Lessa · Darwin Marinho · Davi Ângelo · Georgia Vitrilis · Gi Monteiro · Higo José · Honório Félix · insiranomeaqui · Isadora Ravena · Jonas Pinheiro · Jonas Van · Juno B · Luciana Magno · Maurício Coutinho · Nicolas Gondim · Pedra Silva · plantomorpho · Sérgio Gurgel · Trojany
A exposição conta com recursos de acessibilidade que favorecem a fruição de diferentes públicos durante a visita. Os recursos estão disponíveis em uma plataforma digital e podem ser acessados por meio de QR Code ou com o auxílio da equipe educativa. Entre as opções disponíveis estão textos em Libras, audiodescrição, prancha de comunicação alternativa e a possibilidade de agendamento de visitas acompanhadas por intérprete de Libras. Este projeto é apoiado pelo Ministério da Cultura e pela Secretaria da Cultura do Ceará, com recursos provenientes da Lei Federal N.º 14.399 de julho de 2022.

Lucas Dilacerda é Curador e Crítico de Arte. É sócio da AICA – International Association of Art Critics; da ABRE – Associação Brasileira de Estética; da ABCA – Associação Brasileira de Críticos de Arte; da ANPAP – Associação Nacional de Pesquisadores em Artes Plásticas; e do Comitê de Indicação do Prêmio PIPA. Ganhou o prêmio ABCA pela curadoria da Bienal Internacional do Sertão. Realizou mais de 60 curadorias, 70 textos publicados, 80 cursos e 250 apresentações em diversas instituições de arte, tais como Sony – Europa; Meridiano – Argentina; Museu de Arte Moderna da Bahia; Instituto Goethe; FUNESC, de João Pessoa; FAV, de Goiânia; Museu Vale; Museu de Arte do Espírito em Santo, de Vitória; ECARTA, de Porto Alegre; Parque Laje, do Rio de Janeiro; SESC, de São Paulo; etc. Graduação, Mestrado e Doutorado em Artes; e também Graduação e Mestrado em Filosofia, com ênfase em Estética. Especialização em História da Arte, pela UNIUBE de MG; e Pós-Graduação em Curadoria e Crítica de Arte, pela PUC de SP.
Serviço: Coletiva TERROR CELESTIAL no MAC Ceará, em cartaz até 4 de outubro de 2026, das 14h às 19h, no Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura, Rua Dragão do Mar, 81, Praia de Iracema, Fortaleza, Ceará.